25 maio 2010

Era sempre azul a tua doçura e os teus olhos


Na última noite que nos encontramos, a luz tímida de uma sala ofuscava o brilho dos teus olhos azuis. Deitada sobre uma cama sem perfume, naquele espaço de hospital, as batidas do teu coração pareciam antecipar o silencio de quem se preparava para uma viagem sem retorno à terra.
Tu, que antes contavas as sementes e os frutos de uma boa safra, as previsões de inverno, as superstições das cachimbeiras. Tu que contavas feliz a fertilidade do gado e a multiplicação de bezerros. O perigo da correnteza forte do rio que passava ao lado da casa grande e as gulodices sexuais das filhas das comadres sessentonas, ali estavas mais nada.
Tentei reinvidicar um olhar, um aperto de mão. O primeiro não tive resposta, mas o segundo acolheu-me e fez movimentar tuas veias. Fiquei feliz. Ergui-me num sorriso, energizei esperanças e baixinho cantarolei teu bendito preferido: "Como minha mãe estarei na santa glória um dia, junto à virgem Maria, no céu triunfante..."
Seria possível que sinais de confiança no Divino avivassem a soronidade do exterior e do interior? Que diagnósticos médicos ali registrados se transformariam? Teria eu poderes para acessar a vida, conciliar escalas divinas com as terrenas? Receitas de longa vida?
Agarrei-me na crença, no Cântico dos cântico.
Queria não temera morte. usar minhas canetas e lápis de cores para dar-te outras tonalidades. Mas estava sozinha e só sabia verbear palavras. Vejo um desejo de Apocalipse, de destruição de sombras.
naquela tua última noite reavaliava o sentido da eternidade. O mistério, os medos. A linguagem de Deus. O meu toque sobre o teu corpo.
E importante assumi minhas limitações. Porém, em momento algum vacilei que eras ouvida pelos anjos, principalmente pelo meu anjo dos olhos azuis.
Hoje, recordo. bordo sobre minhas roupas tuas lembranças. Mascaro o sofrimento e tento cruzar sem lágrimas a estrada espiral da saudade.
Penetro na comunicação e entre o deserto e o silencio te digo baixinho: "Diversos foram os momentos mãe Têta que ficamos juntas para conviver com a alegria e a serenidade, paisagens permanentes em tua vida. Agora reina o silêncio, mas uma voz permanece viva abrindo nossos corações: a tua voz. Ela ressoa forte sobre a minha saudade, acalentando-me.
Quero, espelhada em tua serenidade, conseguir nadar sobre açudes tranquilos, como aqueles que costumavas te banhar cedinho da manhã. Quero, espelhada em tua serenidade, fecundar esperança, replantar roseiras no jardim. Em breve, quem sabe, transformar esta tristeza pela tua partida, aos 88 anos, numa canção de louvor a Deus, tal a certeza que habitas, meu anjo dos olhos azuis, o paraíso dos bons.
Por enquanto, ainda estou aqui, reivindicando o teu olhar, a tua bênção, e os teus cuidados para com as tuas netas, que são minhas filhas, herdeiras dessa tua doçura que só quem ama, conhece.
Ainda estou aqui, revelando o filme de tua paciência com cópias autênticas na imagem do teu filho, que é meu amado. ele, caminhando em ritmos diferentes aos meus, levo-me a aprender a harmonizar nossos passos, nossa dança, nosso Sopro.
fica entre nós, mãe Têta, Ajuda-nos a integrar a maravilhosa sintonia da oração onde com a Divindade partilharemos o importante dom do amor e da esperança, redescobrindo o mundo, os amigos e ouvindo o rumor azul do bem-te-vi ainda cantando na janela do teu florido quarto.


LÊDA MARIA

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