04 junho 2010

É impossível medir uma dor


Imagine uma dor. Uma dor qualquer. A dor de uma ferida que sangra e uma dor que dói na alma. Qual a maior? A mais intensa? A dor física faz a gente se faz a gente se curva e gritar de desespero. A dor na alma, no coração ferido, a dor de uma saudade imposta ou que nos pega de surpresa arranca lágrimas silenciosas, faz a gente se abraçar a um travesseiro ou conversar com uma fotografia que ainda guarda o sorriso que perdeu o sentido.
Essa, sim, é uma dor enorme, sem cura, sem jeito, definitiva, sem volta, sem esperança. São dores diferentes, impossíveis de medir, mensurar, avaliar, calcular, interpretar. Só sabe quem está sentindo e é diferente de pessoa para uma pessoa.
Não existe um durão para uma dor de amor ou para os lanhos de uma paixão momentânea, oportuna, circunstantes.
Não existe rémedio, conselho ou conforto. É preciso doer até cansar de doer e sumir com o tempo.
Talvez possa-se medir uma dor pelo tempo que ela levar para sarar. Com quantas palavras e desabafos se cura uma dor assim? Sei lá! Deixa doer a dor, dor grande, profundo, do tamanho do mundo, rasgando a carne. Deixa doer a dor onde ela quiser ficar... Pregada no peito, como uma medalha, uma tribo, uma culpa, uma razão, uma desculpa, mas com respeito, como o corte de uma navalha no corpo hirto de um héroi morinbudo.
Quem já esteve numa guerra, não esquece os sons de uma batalha. O matraquear da metralhadora, o silvo das balas, os corpos cortados caindo no chão... Valha-me a comparação! E as batalhas do amor? quem pode, meu Deus, esquecer os gritos abafados com beijos, os mais loucos, toda fome do mundo, toda sede do mundo, num mundo restrito criado no quarto, em cima da cama? Esses sons... ah, esses sons, de repente, se transformaram em pesadelos quando a outra metade do lençol esfria, quando o perfume se esvai, quando o silêncio se instalar toda as perguntas perdem o sentido porque já não existe quem as responda.
E aí... Aí, dói. Grande , profundo, em pé, de lado, sem jeito. Imagine essa dor... A dor do vazio, do nada absoluto, diante da imagem que sumiu quando a porta se fechou e, no lugar do sorriso que sorria prometendo um até nunca mais.
Essa imagem dói. E você, ali, de pé juntando as lembranças ainda mornas, sem coragem de jogar no lixo, de atirar pela janela. É impossível medir uma dor, como essa que está doendo, não pela coisa em si, que é a despedida, mas pelo cansaço de mais um fracasso pelo desânimo que, lá do fundo, impõe um começar de novo. Doendo mais que nunca.

A. Capibaribe Neto

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